// estudo de caso · projeto pessoal
Agenda Nelci Leite · Podologia
Aplicativo que substituiu o caderno de papel de uma podóloga. Seis telas, uma usuária, nenhuma tela de configuração. O caso mais útil do portfólio para mostrar como eu decido escopo — porque metade do trabalho foi tirar coisa.
O problema
A Nelci é podóloga e atende cerca de cinco pacientes por dia. O paciente marca pelo WhatsApp; ela anota numa agenda de papel. São dois lugares que não conversam.
A dor não era "não ter sistema". Era que o papel não é pesquisável, enquanto a marcação acontece em outro lugar. Como muito paciente marca e depois quer trocar de horário, toda remarcação virava uma sincronização manual entre um chat e um caderno: achar a pessoa no papel, apagar, achar vaga nova, voltar no WhatsApp, confirmar. Várias vezes por dia.
O diagnóstico veio de cinco perguntas sobre a rotina real, não de um brainstorm de funcionalidades. Sem elas, eu teria construído um sistema de gestão de clínica — e ela teria continuado no caderno.
O que foi construído
Seis telas, e uma regra: nada pede que ela aprenda um jeito novo de trabalhar. Ela continua marcando como marca hoje; o que muda é onde a informação fica.
- Hoje — quem vem hoje, com um toque para marcar como atendida
- Semana — achar vaga quando alguém pergunta
- Buscar — achar paciente pelo nome, ignorando acento e maiúscula
- Nova — cinco campos e um botão
- Detalhe — dados do paciente e as duas ações
- Remarcar — escolher horário novo e avisar
O toque em "atendida" na tela Hoje já é o registro do atendimento. Ela não digita nada a mais — e esse toque gera exatamente o histórico de que a fase seguinte precisa. Registro que exige trabalho extra é registro que não acontece.
O app instala na tela inicial do celular como PWA. Para uma usuária não-técnica, "abrir o navegador e digitar o endereço" já é atrito suficiente para o projeto morrer.
A ponte com o WhatsApp: dez linhas em vez de uma integração
O botão "Avisar no WhatsApp" é um link wa.me com a mensagem já
escrita — abre a conversa do paciente no telefone dela, e ela só toca em enviar.
Sem API oficial, sem verificação de negócio na Meta, sem automação intermediária,
sem custo mensal.
Isso mata a parte mais chata da remarcação — reescrever a mensagem toda vez — com um punhado de linhas. A camada oficial pode entrar depois, se um dia fizer falta. Começar por ela seria pagar uma conta antes de ter o problema.
Onde eu decidi NÃO colocar IA
O reflexo óbvio seria um bot de IA atendendo o WhatsApp. Eu fiz a conta: são cerca de dez mensagens por dia. Ela responde melhor e mais rápido do que qualquer bot, e em contexto de saúde o tom importa — mensagem automática sobre tratamento soa errada com muita facilidade.
IA que não paga o próprio custo é enfeite caro. O mesmo filtro tirou da v1 a ficha clínica (dado pessoal sensível na LGPD, entra quando puder ser feito direito), os relatórios (derivam do registro — com dois meses de uso saem quase de graça) e toda tela de configuração, que é dúvida transformada em interface.
Modelagem: a decisão que barateou tudo
Agendamento e atendimento são o mesmo registro, mudando de status. É por isso que o toque no círculo sai de graça: ela não cria nada, só muda um campo. Em duas coleções separadas, ela teria que registrar duas vezes — e não registraria.
No mesmo espírito, o status faltou existe desde a v1, mesmo sem tela
para ele. É o dado mais valioso que ninguém coleta no começo, e histórico
retroativo não se inventa.
Como se sabe que funcionou
O critério não é elogio. São três semanas rodando em paralelo com o caderno: se ela largar o papel sozinha, funcionou. Se voltar para o papel, a pergunta certa é "o que o caderno faz que o app não faz" — e a resposta vale mais do que qualquer funcionalidade planejada.
O teste de usabilidade é entregar o celular sem explicar nada e pedir quatro coisas: quem vem hoje depois do almoço, mudar o horário de uma paciente, marcar outra como atendida, achar um terceiro pelo nome. Ficar calado e anotar onde ela hesita. Cada hesitação é defeito de interface, não falha de entendimento dela.
O que eu precisei saber para construir isso
Próximo passo
A fase seguinte é a lista de retorno: paciente que não volta não reclama, não aparece em lugar nenhum e some sem ninguém notar. Ela só vem depois de dois meses de registro acumulado — antes disso não há o que ler.